De acordo com números de análises recentes da economia brasileira, a recuperação econômica já aparece em vários setores como resposta às políticas governamentais de incentivo fiscais, de aumento e ou manutenção do emprego e da renda dos consumidores e em relação às medidas administrativas de redimensionamento, investimento e modernização das empresas. No setor florestal, a conjuntura atual mostra que os indicadores são em geral positivos, sendo mais ou menos tímidos em alguns segmentos do que em outros, porém revelam recuperação e ou dinamização de investimentos e perspectivas.
Setor de Celulose e Papel
A crise financeira mundial parece não assustar mais o segmento de celulose e papel. Novos investimentos estão em andamento como a instalação da Suzano Papel e Celulose no Piauí, com previsão de gerar 15 mil empregos diretos e indiretos. Serão investidos US$ 150 milhões na base industrial e cerca de R$ 4 bilhões em toda sua etapa produtiva. Outro acontecimento que merece destaque é a incorporação da Aracruz pela Votorantim Celulose e Papel (VCP), fazendo surgir uma nova empresa, a Fibria, com uma receita líquida inicial estimada em R$ 6 bilhões, capacidade de produção de 5,8 milhões de toneladas e 15 mil funcionários. O projeto número 1 da lista de investimentos da Fibria é a duplicação da unidade da Aracruz em Guaíba. Outro projeto reafirmado pela Fibria é o Losango, da VCP, apesar de ainda está sem data para entrar em operação. Por outro lado, a Cenibra estuda ampliar em 25% seu projeto de investimento em Belo Oriente (MG). Inicialmente, a intenção da empresa era instalar uma nova linha de produção de celulose com 800 mil toneladas, mas poderá elevar essa capacidade para 1milhão de toneladas por ano, dependendo de questões técnicas e dos custos de equipamentos, bem como da garantia de abastecimento da fábrica. O plano de investimento na nova linha de produção está mantido entre US$ 1,6 bilhão e US$ 1,7 bilhão e acontecerá no fim de 2013 ou início de 2014. No mercado financeiro, o preço das ações das quatro principais empresas do setor – Aracruz, Klabin, Suzano Papel e Celulose e Votorantim Celulose e Papel (VCP) – apresentaram aumento médio de 24,11%, 5,72%, 12,09% e 27,83%, respectivamente, no período de março a agosto de 2009 devido aos reajustes dos preços da matéria prima na Europa, América do Norte e China.Esses acontecimentos podem ser explicados pelo fato de a demanda por celulose de fibra curta na China e na Europa se manter forte, a recuperação das vendas na América do Norte e pelo aumento dos preços da celulose de fibra curta e de fibra longa no mercado internacional.
Produtos Florestais Não Madeireiros
Com os produtos florestais não madeireiros verificou-se que de março a julho de 2009 o preço da borracha natural foi o que mais aumentou quando comparado com o preço do palmito e do cupuaçu. Apesar desse aumento, os preços do elastómero ainda estão abaixo do Preço Mínimo, de R$ 1,53/kg, fixado pelo Governo Federal sob a Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM). De acordo com Heiko Rossmann, diretor da Associação Paulista de Produtores e Beneficiadores de Borracha (Apabor) e considerando-se a média da participação do heveicultor no preço médio recebido pelas usinas de beneficiamento paulistas nos últimos 60 meses, que foi de 68,8%, o preço do GEB-1 deve aumentar para R$ 4,20/kg para que o produtor passe a receber o valor equivalente ao Preço Mínimo. O preço médio mais remunerativo registrado em julho pode ser atribuído ao início do período de entressafra na principal região produtora do país, o noroeste do Estado de São Paulo. A escassez de oferta da matéria prima nesta época impulsionou os preços levemente para cima. A crise financeira mundial provocou a queda dos preços da borracha natural, assim como ocorreu com outras commodities. Desde janeiro, o preço recebido pelos heveicultores está abaixo do Preço Mínimo. Rossmann acredita que o desestímulo ao plantio de novas áreas provocado pela crise, que para ele é o principal prejuízo ao setor, poderia ter sido minimizado com a PGPM. Em meados de agosto, a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Borracha Natural (CSBN), do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), solicitou à Secretaria de Política Agrícola (SPA/MAPA) a realização dos leilões da PGPM para a borracha, ainda em 2009. Os instrumentos propostos foram o Prêmio Equalizador Pago ao Produtor (PEPRO) e o Prêmio para o Escoamento de Produto (PEP). A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), com o objetivo de melhor subsidiar a proposição do Preço Mínimo da borracha natural, inicia, ainda em setembro, um estudo de custo de produção nos principais estados produtores (SP, MT, BA e ES). Uma pesquisa realizada na região norte constatou que o desenvolvimento do mercado de produtos florestais não madeireiros é prejudicado pela dificuldade de aprovação e liberação dos planos de manejo e pelos problemas na fiscalização da madeira em trânsito. Além disso, as empresas operam com baixa agregação de valor ao produto, utilizam mão de obra com baixa qualificação e fazem pouco investimento em treinamento e desenvolvimento de pesquisa, tecnologia e inovação. Em outras palavras, as comunidades que exploram os produtos não-madeireiros estão fora do cercado, pois a escala de produção é pequena, os produtos têm baixa qualidade e a tecnologia de beneficiamento da matéria prima e fabricação dos produtos é improvisada. O nível de instrução das pessoas é baixo, o grau de organização é insuficiente e não apresenta representação nas esferas governamentais e do mercado.Ressalta-se ainda, a existência de fragilidade referente à legalização das terras de florestas públicas, ao modelo de exploração florestal vigente e ao baixo preço dos produtos comercializados. Para assegurar sustentabilidade na exploração florestal, ampliar a inclusão das comunidades locais, gerar ocupação para grande contingente de pessoas, melhorar a distribuição da renda e agregar valor aos produtos, os pesquisadores propõem um modelo alternativo de exploração racional da floresta, combinando o manejo de baixo impacto utilizado pelas empresas capitalistas e os produtos residuais e não madeireiros de uso das empresas sociais.
Setor de Madeira Processada
As fusões também acontecem no setor de madeira processada. A compra da Tafisa Brasil, ligada ao grupo português Sonae, pela chilena Arauco, passada, promete agitar o mercado de painéis de madeira nos próximos meses. Esse é o segundo grande negócio do setor neste ano. Em junho, a Duratex, do grupo Itaúsa e a Satipel anunciaram a unificação das operações, criando a maior indústria do setor no Hemisfério Sul e a quinta maior do mundo. No entanto, o mercado de painéis de madeira, usado na indústria de móveis, não vive seus melhores dias. Apesar do forte ritmo de investimentos entre 2007 e 2010, nos quais estão previstos aportes de US$ 1 bilhão, o que deve elevar a capacidade de produção de 6 para 10,2 milhões de metros cúbicos por ano (ABIPA), as vendas de 2009 devem ficar entre 4,5 e 5 milhões de metros cúbicos. “A demanda só deve absorver toda essa capacidade dentro de cinco anos”, afirma Gilson Berneck, presidente da Berneck (fábrica situada na região metropolitana de Curitiba). A venda de painéis nos três primeiros meses de 2009 foi 20% menor do que no último trimestre do ano passado. O mesmo aconteceu com as exportações, que tiveram queda de 30% na mesma base de comparação, de acordo com Rosane Donati, superintendente executiva da ABIPA. A crise econômica pegou o setor no contrapé ao diminuir as vendas da indústria de móveis, seu principal cliente. Afetada pela queda nas exportações e nas vendas do mercado interno, a indústria moveleira reduziu o ritmo de encomendas e forçou a queda no preço do produto em cerca de 25%, em média. O freio no mercado fez a Berneck segurar a construção de uma nova fábrica em Santa Catarina, orçada em R$ 300 milhões. Embora as vendas tenham começado a reagir em junho, o presidente da empresa acredita que o setor ainda deve fechar o ano com uma queda de 15% nos negócios. Jorge Hillmann, diretor geral da Masisa Brasil, acredita que a queda deve ficar entre 5% e 10%1.
Setor moveleiro
O setor moveleiro, apesar das fortes dificuldades enfrentadas como decorrência da crise econômica, continua acreditando numa recuperação mais acentuada nesse segundo semestre de 2009. Para isso, o setor tem procurado se estruturar e se organizar melhor, trazendo mais modernidade administrativa e mercadológica para os empresários, a fim de atrair mais os consumidores. O setor continua investindo fortemente em feiras, exposições e festivais de móveis em todo país, visando o aumento das vendas. Essas medidas têm trazido resultados positivos segundo os diretores dos sindicatos das indústrias de móveis e coordenadores dos eventos. Em geral, o crescimento nas vendas tem sido em torno de 20%2.
Carvão vegetal
O mercado do carvão vegetal esboça reação pós crise e retorna ao preço médio de 100 reais por mdc, o mesmo praticado no mercado antes da crise, entre maio de 2004 e maio de 2008. A recuperação do preço se dá a partir da recuperação ou aquecimento do setor siderúrgico ou de ferro gusa em Minas Gerais. O preço que em 2008 chegou a R$ 200 por metro cúbico e que permaneceu entre R$ 70 a R$ 80 e praticamente estabilizado durante todo o primeiro semestre de 2009, parece dar sinais de alívio para o setor. A permanecer esta tendência, o aumento da demanda do carvão vegetal, ao que parece ainda incipiente, trará de volta maior dinamismo ao setor. Os investimentos feitos em reflorestamento durante a euforia dos preços praticados em 2008 e interrompidos com a crise, podem agora apresentar resultados e trazer novo ânimo para que os empresários voltem a investir com perspectivas mais otimistas de retorno. Ainda como conseqüência desse aquecimento, milhares de trabalhadores, expulsos do setor nesse período, aguardam pela volta ao emprego. Segundo a Associação Mineira de Silvicultura - AMS, os aportes de investimentos planejados eram da ordem de R$ 15 bilhões em 10 anos a partir de 2008, quando foi injetado R$ 1,2 bilhão. Este ano a previsão era aplicar R$ 1,5 bilhão; porém, com a retração econômica os investimentos deverão ser reduzidos à metade.
Naisy Silva Soares - Economista, MS. Ciência Florestal Alberto Martins Rezende - Eng. Agrônomo, MS. Economia Rural Márcio Lopes da Silva - Eng. Florestal, DS. Ciência Florestal Altair Dias de Moura - Eng. Agrônomo, PhD. Agribusiness Management